“Conducta”: Cinema revolucionário cubano… ou nom?

A película de Latino Films / ICAIC “Conducta”, dirixida por Ernesto Daranas, conta a história de Chala (Armando Valdés Freyre), un rapaz de once anos que vive coa súa nai alcóliica e uma manda de cans de briga que adestra como fonte de ingresos.  Ao tempo mantén unha relación especial coa súa mestra Carmela (Alina Rodríguez) Mauricio Castro, membro do colectivo editor do Diário Liberdade e militante da esquerda independentista, publica no diario “Sermos Galiza” uma crítica deste filme, no que identifica “a presença visível de marginalidade social num sistema imperfeito (…) uma realidade chocante exposta em toda a sua crueza com financiamento público do próprio Estado cubano”.  A seguir reproducimos o texto de Maurício Castro:  

O filme "Conducta" expón uma realidade cubana chocante em chocante em toda a sua crueza com financiamento público do próprio Estado cubano.
A xuizo de Maurício Castro, o filme “Conducta” expón uma realidade cubana chocante em toda a sua crueza, com financiamento público do próprio Estado cubano.

Maurício Castro – Sermos Galiza

No último fim de semana fum surpreendido pola presença nada habitual de um filme cubano nos velhos cinemas do ferrolano bairro de Esteiro. Nom podia perdê-lo!
Certo. Começo por admitir que nom sou nada neutral em assuntos cubanos. O meu velho amor platónico por esse heroico povo, meio galego, parte da minha mais remota infáncia, entre acordes de Silvio Rodríguez nas velhas cassetes dos 70. Continuou materializando-se na minha viagem de três inesquecíveis semanas à ilha em 91, para encontrar um velho da família, de mais de 90 anos, que abandonara a aldeia galega com menos de 15 e que, quando dormia, ainda falava num idioma que ninguém da família caribenha percebia. Após aquele breve contato material, o meu velho amor voltou a tornar tam platónico como incondicional. Até hoje.
Quando estava a assistir este filme de tema educativo (os problemas sociais que confluem numha escola de primária de Havana) vinhérom-me logo à memória dous filmes que vim há já uns bons anos: o brasileiro ‘Central do Brasil’ e o alemám ‘Good Bye Lenin!’
Com o primeiro deles, ‘Conducta’ partilha ter como protagonistas um meninho e umha velha, ambos carentes e construindo umha bela e profunda relaçom de amizade entre as penúrias e hostilidade do mundo que os rodeia.
Com o segundo, a evocaçom crítica, contraditória, saudosa, do outro mundo possível, que queria ser socialista, e a dureza com que ele se bateu nas suas concreçons até hoje: na fita alemá era a Alemanha Democrática em 89, nesta é a Cuba pós-Período Especial dos nossos dias.
Um tom semelhante ao daqueles dous magníficos filmes ressoava na minha memória ao ritmo que esta história habanera avançava, contada com idêntica mestria. Nom é nengumha descoberta a qualidade do cinema cubano, tantas vezes acreditada, mas sempre demonstrando nom serem precisos grandes orçamentos para realizar pequenas obras de arte como esta.
Nom lim ainda críticas ou comentários sobre esta ‘Conducta’, mas temo que algumhas poderám ter mais um aspeto em comum com as de ‘Good Bye Lenin!’: Dará para ser utilizada no argumentário anticomunista na hora de atacar o sistema cubano, como o filme alemám foi interpretado por boa parte da crítica como ataque à DDR. Quanto a mim, como espetador com simpatias comunistas prévias para quaisquer tentativas de superaçom do capitalismo como essas, nom fago a leitura anticomunista neste caso, como nom a figem na história de Wolfgang Becker em 2003.
No caso de ‘Conducta’, filme do realizador cubano Ernesto Daranas, assistimos a umha Cuba atual com carências económicas e presença visível de marginalidade social num sistema imperfeito: diante de nós passeiam o burocratismo no ensino, brigas ilegais de cans, presos políticos, maes alcoólicas, emigrantes e imigrantes sem direitos… Umha realidade chocante exposta em toda a sua crueza com financiamento público do próprio Estado cubano.
Entre as situaçons a que assistimos, encontra-se a do meninho protagonista, Chala, que vive com umha mae nova, sem recursos e toxicodependente, o que o obriga, com 11 anos, a compatibilizar a escola com a participaçom indireta na organizaçom de luitas clandestinas de cans com apostas. Ameaçado na Escola com ser levado a umha escola especial (os chamados “Centros de Conduta”), o neno recebe o apoio da sua velha professora Carmela, que se enfrenta à maquinaria burocrática para evitar que se aplique o protocolo.
Estaremos entom diante de umha firme denúncia da “ditadura cubana” feita a partir do interior da sua própria produçom cultural?
Acho que nom dá para duvidar sobre a existência em Cuba dos numerosos problemas que se retratam ao longo desta história de 108 minutos. Seguramente poderiam ser apresentados outros muitos parecidos. Porém, para qualquer observador atento e nom fanatizado, dam nas vistas alguns factos igualmente reais, que contrastam fortemente com a realidade nom só de qualquer país do “terceiro mundo” como Cuba é, mas com a da nossa Galiza de hoje.
Ao longo da longametragem fica claro que em Cuba nom há crianças sem escolarizar. No drama de Chala, o neno protagonista, isso está fora de questom. O conflito situa-se em se ele deve continuar na sua escola de sempre ou ser enviado para umha em que receba umha educaçom especial para crianças conflitivas. É discutível, mesmo criticável, a existência desse tipo de centros, mas qualquer outro país latino-americano adoraria o privilégio de nom ter crianças fora do sistema educativo.
Basta comparar a realidade do Chala com a do Josué, protagonista de ‘Central do Brasil’. Para quem nom tenha visto, ele perde a mae num desgraçado acidente. Entom vê como um guarda privado mata a tiros um miúdo que roubou qualquer cousa sem valor num pequeno negócio. A continuaçom, ele próprio fica condenado a ser um meninho da rua e, mais tarde, graças à ajuda da velha Dora, ele consegue fugir a um seqüestro por parte de um bando criminoso que pretendia comerciar com os seus órgaos. Eis o contraste entre os “dramas infantis” cubanos e brasileiros, tam realisticamente retratados em dous grandes filmes como som ‘Conducta’ e ‘Central do Brasil’.
Quanto ao “burocratismo intolerável” do sistema de ensino cubano, parte de umha premissa que ninguém na trama discute: máxima cobertura para a criança, discutindo-se só que via será mais adequada para o ajudar. A inspeçom estatal empenha-se na aplicaçom do protocolo, enquanto a velha professora e amiga do Chala denuncia essa maquinaria pouco sensível com as particularidades do caso.
No filme assistimos também, como histórias paralelas, às dificuldades de umha meninha imigrante, procedente doutra província e que o sistema quer devolver, junto ao seu pai, ao lugar de origem. Também conhecemos um garoto cujo pai está em prisom por motivos políticos, assim como a doença grave doutro neno, que está internado num hospital com todos os cuidados que a ciência cubana disponibiliza para qualquer criança.
Todo isso nom exclui a “dureza” do sistema educativo cubano: A administraçom fai questom de retirar um postal religioso de umha sala de aulas, onde foi afixado por umha das nenas. A professora rebelde, Carmela, umha mulata de origem pobre que só conseguiu chegar a professora graças ao triunfo revolucionário, enfrenta-se ao sistema para manter a estampa religiosa pendurada, contrariando o princípio laico do ensino no País. Nom o fai porque ela própria seja religiosa, mas porque considera dogmático evitar qualquer exceçom sem importáncia como essa…
As indisciplinas e insubordinaçons de Carmela para defender os seus alunos frente à rigidez do sistema provocam reunions e debates nos organismos administrativos para abordar a crise. A discussom é aberta, a “acusada” defende-se e nengumha medida é tomada contra ela, que continua no seu posto. Alguém imagina qualquer professor ou professora galega da rede pública (se for privada, já nem se fala!) desobedecendo reiteradamente as diretrizes superiores e impondo factos consumados no referente ao roteiro educativo que deve corresponder a umha criança?
Chama a atençom igualmente o papel da polícia nos sarilhos em que o meninho protagonista se envolve continuamente. Vendo-a, lembro eu próprio o papel real da polícia cubana nos primeiros anos 90, em que lá estivem, como força pública democrática a anos luz dos corpos ultrarrepressivos que também tivem ocasiom de conhecer no Brasil… e na Galiza.
Poderia comentar outros aspetos desta bela e cubaníssima ‘Conducta’, que considero umha digna representante da arte mais comprometida e revolucionária. Remeto-me para afirmar isto nada menos que a Karl Marx e à sua insistente convicçom da necessidade revolucionária de fazer crítica de todo o existente. Isso fai o filme que comentamos: crítica aberta e implacável de todo o existente no próprio país que produziu este digno produto cultural.
Sabemos que Cuba é um país pequeno, com escassos recursos e um bravo povo batendo-se há mais de meio século polo socialismo. Sabemos também que Cuba nom vai chegar sozinha ao socialismo, apesar da sua séria tentativa. Nom poderia fazê-lo, porque nom há condiçons para ela sozinha conseguir isso. Porém, a sua firme afirmaçom patriótica, junto à sua heroica tentativa de transiçom para o socialismo merecem toda a nossa simpatia, seja qual for o desfecho de tam linda experiência.
No caminho, Cuba tem dado ao mundo suficientes mostras de que o socialismo é possível, com fulgurantes lampejos de justiça, com duradouras conquistas de verdadeira humanidade, essa que o velho barbudo alemám só considerava possível a partir do comunismo. E todo isso no meio de um mundo de barbárie sem fim como o que ainda habitamos.
Som exemplos como o cubano que nos fam acreditar que um outro mundo é possível. Som filmes como ‘Conducta’ que nos reconciliam com a arte como expressom do compromisso em tempos de cultura mercantil e servil ao serviço da alienaçom capitalista mais desumanizadora e aberrante.
PS: Quando acabo de redigir estas linhas, vejo que há uns dias morreu em Cuba Alina Rodríguez, a atriz que dá vida à professora Carmela. A minha homenagem final é para ela e em seu nome para o mundo cinematográfico e cultural cubano.

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